14/09/2026
A INFÂNCIA DIANTE DO ABISMO DIGITAL: QUEM ESTÁ PROTEGENDO NOSSAS CRIANÇAS?
Vivemos uma contradição assustadora. Enquanto a sociedade luta pelo respeito, pela valorização da mulher e pela proteção contra a violência, crianças podem ser expostas, nas redes sociais, a vídeos pornográficos e cenas de brutalidade com poucos toques.
De um lado, defendemos a dignidade humana; de outro, permitimos que algoritmos entreguem conteúdos que podem comprometer a formação de quem ainda não possui maturidade para compreendê-los.
TikTok, Reels e outras plataformas foram construídos para prender a atenção. Mas o que acontece quando essa lógica alcança uma criança?
O cérebro infantil ainda está em formação, especialmente o córtex pré-frontal, envolvido no controle de impulsos, julgamento crítico e regulação emocional.
A exposição precoce a conteúdos pornográficos e violentos pode contribuir para distorções sobre sexualidade, banalização da violência, medo, ansiedade e padrões de comportamento problemáticos.
Como psicólogo clínico, preciso manifestar uma preocupação que nasce também da minha experiência profissional. Em todas as demandas clínicas que chegaram até mim com queixa de vício em pornografia, os pacientes relataram ter tido acesso a conteúdos pornográficos antes dos 11 anos de idade.
Não afirmo que toda exposição produza dependência, mas esse padrão observado em minha prática merece atenção.
A contradição é gritante: enquanto lutamos para que mulheres sejam respeitadas, crianças podem ser estimuladas precocemente a enxergá-las pela ótica da objetificação sexual.
Enquanto combatemos a violência contra a mulher, crianças podem assistir a vídeos de agressões, torturas e assassinatos brutais.
Que valores estamos ensinando? Como será a mente dos nossos futuros adultos? Como será a sociedade construída por aqueles que cresceram consumindo sofrimento e objetificação como entretenimento?
Enquanto famílias vivem angustiadas, tentando proteger seus filhos de exposições que não conseguem controlar, existe, do outro lado, uma indústria de atenção que transforma a vulnerabilidade humana em oportunidade de lucro.
A ganância, o materialismo e a indiferença gritam explicitamente na nossa cara. Quando ganhar dinheiro se sobrepõe à responsabilidade de proteger a infância, o que estamos fazendo com as bases sociais que deveriam sustentar a nossa civilização?
A responsabilidade não pode ser transferida exclusivamente aos pais. Controle parental ajuda, mas não pode ser a única barreira entre uma criança e conteúdos potencialmente traumáticos.
O Estado e as plataformas precisam responder. Não basta criar leis ou disponibilizar ferramentas facilmente contornáveis. É necessário exigir mecanismos de proteção eficazes, fiscalização e responsabilização.
A infância não pode ser o preço do engajamento digital. E a nossa indiferença não pode ser cúmplice dessa destruição.
Diógenes Chaves
Opinião