17/03/2014
O TRABALHO E O TRABALHADOR (HISTÓRIA)
Em uma de suas brilhantes composições, Gonzaguinha pontua que “um homem se humilha se castram seu sonho, seu sonho é sua vida, e vida é trabalho... E sem o seu trabalho o homem não tem honra, e sem a sua honra se morre, se mata... Não dá prá ser feliz, não dá prá ser feliz” (Menino guerreiro).
Essa reflexão de Gonzaguinha é de suma importância à proposta de nosso projeto, isso porque não devemos negligenciar, aqui, o lugar que o trabalho ocupa na vida do Homem, e o significado que este último lhe dá. Em outras palavras, compreender a relação do indivíduo com o trabalho é o melhor caminho a ser trilhado na elaboração de medidas preventivas ao sofrimento-psíquico comum ao trabalhador. E isso nos põe diante de uma grande questão: trabalhar é sacrifício ou realização? Na perspectiva da música de Gonzaguinha, essa parece ser uma questão resolvida, porém é importante que avancemos à temática. Para tanto, pegaremos como referência um texto de alguém que é especialista no assunto, a saber, Eduardo Shinyashiki (In rev. Psique, ano VI, nº 61, pp. 32/33).
Uma das maiores conquistas da sociedade civilizada é a transformação do significado da palavra ‘trabalho’. Os gregos e os romanos, por exemplo, consideravam o trabalho uma obrigação servil e destinada aos escravos e prisioneiros. A partir de 1700, começou a se tornar uma atividade cada vez mais difundida entre todas as classes sociais e, gradualmente, uma mudança ocorreu na perspectiva desse conceito, começando a se tornar uma atividade digna, orientada a atingir objetivos, como realizar algo ou oferecer serviço.
Shinyashiki nos diz que, com o tempo, o trabalho se tornou uma oportunidade de expressão das potencialidades individuais, um meio de realização pessoal, de relação social, de experiência, e que influência profundamente a identidade pessoal, autoestima, a autoconfiança e o papel na sociedade. O trabalho é uma atividade pela qual o ser humano se torna consciente de si mesmo e de quem ele é. Configura-se com o contexto para expressar e utilizar os próprios recursos físicos, intelectual e emocional.
Os significados etimológicos de origem da palavra trabalho ‘trabalho’, em praticamente todas as línguas, são um pouco diferentes das atuais considerações, e nos esclarecem as antigas ideias ligadas à atividade. Originalmente, a palavra uma conotação negativa, de sofrimento, fadiga, exploração, utilização do trabalho como punição, restrição da liberdade individual. O vocábulo latino de origem, ‘tripalium’, denomina um instrumento de tortura. Já a palavra latina ‘labor’ (lavoro, trabalho em português), significa esforço, dor, pena. Ou seja, no geral, os vocábulos que indicam ‘trabalho’ têm como raiz uma conotação emocional amarga e dolorosa.
Apesar do avanço na contemporaneidade, que concebe o trabalho como direto do ser humano e elemento indispensável ao desenvolvimento desse Ser, em alguns momentos da nossa vida, pode nos parecer que o trabalho nos lembra mais o significado da antiguidade grega e romana que o contemporâneo, nos parecendo mais que uma tortura e punição do que uma realização. Nessa mesma sociedade civilizada aumentam, cada vez mais, as queixas de estresse relacionado ao trabalho. Ansiedade, angústia, mal-estar e doenças físicas se manifestam com relação ao próprio contexto e função desempenhada, aumentando a desconfiança pela profissão, às vezes encarada como ameaça a própria saúde.
Para Shinyashiki, essa angústia pode ser causada por excesso de tarefas, medo da demissão, conflitos interpessoais no ambiente profissional, e outras infinitas razões. Ou pela sensação de não atingir os objetivos estabelecidos, por perceber um desequilíbrio entre o desempenho exigido e a crença de não possuir as capacidades para consegui-lo. A distância entre as metas e expectativas profissionais, e as próprias limitações pessoais podem ficar cada vez maiores na nossa cabeça e criar profundo mal-estar, assim como a incoerência e a falta de sintonia entre a atividade profissional e os valores pessoais.
Na evolução do trabalho, o peso da identidade profissional aumentou tanto que esmagou, engoliu, confundiu a identidade pessoal, nos levando a dedicar cada vez mais tempo e espaço da nossa vida ao trabalho. Isso causou impacto negativo inclusive para a saúde, e deixou o estresse, a angústia e o mal-estar se infiltrarem profundamente no dia a dia profissional, afetando o rendimento, os resultados, a performance e a qualidade de vida.
O importante, nesta questão, é saber equilibrar essas duas identidades, a pessoal e a profissional. Conhecer a si mesmo, saber seus fatores individuais de caráter, e pensá-los em conjunto com os fatores ambientais ligados à organização da empresa/órgão ao conteúdo profissional e à relação com a equipe, pode ser um ponto importante de reflexão para viver o trabalho não como um peso e um castigo, e sim, como um espaço de realização profissional e satisfação pessoal.