02/07/2026
Inaugurada como um dos maiores projetos do setor sucroalcooleiro do Brasil em 2009, a instalação da Usina São Fernando às margens da MS-379, entre Dourados e Laguna Carapã, chegou como um sinônimo de esperança para muitos que buscavam uma ‘empresa boa’ para trabalhar. No entanto, o que parecia estável, virou do avesso a vida de famílias de colaboradores que até hoje esperam para receber seus direitos.
Jonas Borges, 49 anos, passou por cargos como auxiliar, operador de máquinas agrícolas, motorista de caminhão p**a, canavieiro, entre outros. Conta que era bom trabalhar no local, até que começaram os problemas financeiros e, em seguida, a recuperação judicial, decretada em 2017.
“Foi bem difícil para mim sem trabalhar, sem expectativa, com os créditos trabalhistas para receber, devendo, casa financiada, não foi fácil. Foi bem difícil mesmo, mas o que resta é esperança de receber”, disse ele.
“O mais difícil foi a saúde que eu perdi. Passei por dois processos de cirurgia de coluna”, relata Borges, lembrando que o trabalho ‘pesado’ não foi o único fator, mas colaborou para desencadear esses problemas.Nelson Carlos Alencar de Matos, de 50 anos, trabalhou na terraplanagem da usina para empresa terceirizada e depois foi contratado pela própria indústria para fazer transporte canavieiro. Ele ficou até um ano antes da falência, período em que começou a perceber que havia alguma coisa errada.
“Eu gostava de trabalhar na São Fernando. Depois, com o decorrer do tempo, a gente foi vendo que as coisas não eram aquilo que a gente pensava”, conta. “A gente via muita coisa errada acontecendo, muita coisa errada. A gente ia questionar com nossos encarregados, eles falavam que já estavam investigando e só cada ano que passava a gente só via que estava enfraquecendo, até que entrou no processo de falência”, relatou.
Ele conta que saiu da indústria de ambulância certo dia após machucar a coluna enquanto destravava a ‘sapata’ de um caminhão. “Excedeu o peso, cedeu e aconteceu a hernia de disco”, contou ele, que tem três lesões como essa na coluna.
Nelson conta que após o ocorrido ficou um ano ainda na empresa, recorreu à justiça, mas nunca conseguiu que o caso fosse reconhecido pelo INSS (Instituto Nacional de Seguridade Social) como acidente de trabalho.
“Minha vida ficou bem complicada, porque a gente ia fazer os te**es para entrar nas outras empresas e sempre negavam por causa do problema da coluna. Sempre. Eu não consegui mais trabalhar registrado desde então. Por isso que eu trabalho autônomo, eu não consegui mais registro”, conta ele que hoje tem um veículo próprio com o qual faz frete.
“A gente está vencendo com as dificuldades, porque não está fácil para ninguém. Mas, estamos vencendo”, diz. Para ele, não é apenas o dinheiro, é também uma questão de justiça. “Tem colegas que já não estão aqui, já partiram. Não é só por mim, é por eles também”, complementa.
“Hoje eu não posso trabalhar mais, devido ao meu problema de saúde. Nem a carteira [de motorista de caminhão] eu não tenho mais. Foi rebaixada a minha carteira devido aos problemas. Fiquei limitado, não está fácil não, mas estamos lutando”, relata.